– SÉRIE – “Chamo-me Frederico”

DIA 1 – DESABAFO

            Chamo-me Frederico Alves Guimarães. Olho para o meu cartão de cidadão e ainda se consegue ler que sou do sexo feminino e que me chamo Joana. Dói, mas a conservatória ainda não me aprovou a papelada para que possa avançar no processo final. Este é o meu diário de todos os dias. Quer dizer, comprei-o hoje para falar comigo. Só eu, a caneta e estas folhas.
            Tenho 19 anos e sabia muito bem quem eu era aos 14. Sim, porque não tenho doença alguma para me justificar a quem quer que seja. Apesar de que todos os profissionais com quem contactei me fizeram acreditar que aquilo que estava a fazer podia ser um erro e que me podia arrepender severamente de o estar a fazer, como se fosse uma brincadeira de gato e rato. Não. Não é uma brincadeira. É a minha vida. Posso dizer-vos que quando era criança brinquei com tudo aquilo a que chamam brinquedos de menina. Ainda hoje não sei o que isso significa. Eu adoro carros, adoro desporto, mas também gosto muito de roupa, de filmes lamechas e de cozinhar. O mal deste mundo é haver quem ache que há distinção na maneira como nos comportamos. Isto é de mulher, isto é de homem. Pois então que nunca teremos direitos iguais para todos, porque fazem questão de catalogar tudo o que existe.
            Comecei a perceber, quando me olhava ao espelho, que ter mamas e vagina era profundamente desconfortável, porque não me sentia eu, porque tinha vergonha de mexer no meu próprio corpo, porque aquilo não me pertencia, sem saber o porquê exatamente. E depois chorava. Não conseguia tomar banho, não conseguia fazer a minha higiene e castigava-me por me sentir culpada num corpo que não era o meu.
            Nunca falei com a minha mãe sobre isto, muito menos com o meu pai. A minha família é profundamente religiosa e acha que aquilo que Deus construiu é para ser mantido como tal. E eu acreditava. Tinha praticamente 13 anos nessa altura. Era inocente e fazia da minha realidade aquilo que me diziam, ainda por cima a minha família que era o meu pilar. Aos 15 anos tive a coragem de contar à minha irmã o que estava a sentir. Sentei-me na cama e só a olhei nos olhos. Ela sabia o que se estava a passar… não me queria dizer, nem invadir o meu espaço…, mas ela sabia e disse-me que podia contar com ela para o que fosse preciso. “Eu não me sinto mulher… ajuda-me, por favor.”, foi a única coisa que lhe disse quando desabei em lágrimas no colo dela. E foi aí que começou todo o processo: as consultas, os desabafos, as discussões… e a violência. Era agredido todos os dias à saída da escola porque, vejam só, queria ser simplesmente eu. Ninguém tem noção o que é viver à sombra do que queremos e ninguém nos protege, nem professores, nem auxiliares, nem família, nem amigos, nem mesmo o teu próprio país, porque só queres ser tu.
            A minha mãe ainda não aceitou a 100% esta longa caminhada. O meu pai é o meu grande pilar. Para mim, foi a grande surpresa. Pensava que seria pior. É ele que me tem levado às consultas médicas e de psiquiatria sempre que eu preciso e é o que mais orgulho tem em mim. Amo-o para a vida toda.
            Hoje sinto-me bem e feliz, porque escrevi a primeira página do meu diário, mas estou cansada porque fiz uma intervenção cirúrgica a semana passada e não me sinto completamente recuperado. Tenho estado a descansar e a ser mimado o quanto der. É de noite e estou no quarto sozinho, a olhar para a parede em frente e a ver a quantidade de fotografias que tenho da minha família. Desculpem não conseguir escrever mais nada, mas as lágrimas vêm-me outra vez sem conseguir contê-las. Não tenho já forças nas mãos, mas de uma coisa tenho a certeza: quero dormir e acordar amanhã com a sensação de que posso agradecer mais um dia por estar vivo.

DIA 5 – AS CONSULTAS   

           Estou mal. Acordei enjoado e ainda não parei de vomitar. O diagnóstico que me deram, se de facto tudo correr bem, foi 10 intervenções cirúrgicas e já fui submetido a 6 num espaço de 1 ano. É muito doloroso. As consultas de psiquiatria começaram quando tinha 16 anos. A médica que me acompanhou não me compreendia e chamava-me de “parva”, mesmo já me sentindo um “parvo”, no sexo masculino. Saía do consultório em lágrimas e refugiava-me no quarto à espera que a vida acontecesse. Resultado? Não acontecia.
          Comecei a escrever e a ouvir música sozinho para me tentar distrair do mundo lá fora. As coisas pareciam estar tão longe de acontecer. Quer dizer, eu via-as assim, como algo inatingível, mas não podia. Tinha de lutar pelo queria e essa luta só era possível se, de facto, me comportasse como se já fosse quem eu queria ser, o Frederico. Larguei tudo naquele momento e tirei todas as roupas que tinha no armário para dentro de alguns sacos, fiquei apenas com o essencial. Depois usei as minhas mesadas, que andava a poupar, e pedi à minha irmã para ir às compras comigo. Foi, até hoje, dos dias mais felizes da minha vida. Porque me diverti muito e, a cada peça de roupa que experimentava, sentia-me ainda mais eu. Rapaz.
          Não comprei muita coisa na altura, porque também queria guardar algum dinheiro para as cirurgias. Hoje, tenho o armário exatamente como eu quero. Foram 3 anos de muitas batalhas para ter o que queria finalmente. Depois pedi ao meu pai para me ajudar a pintar o quarto, de branco. Restaurei uns móveis e mudei alguma mobília a custo quase de zero. Quis que a minha mãe visse tudo aquilo: a mudança, porque estava feliz. Deu-me uma chapada e disse-me para pensar muito bem na minha vida. Deus nunca permitiria uma coisa daquelas. “A sério?”, foi a única coisa que me ocorreu dizer. O meu pai saiu cabisbaixo e fechou a porta. Fiquei sozinho. Mais uma vez, o apoio que eu queria não estava lá. A mulher que de tudo fez para ser a criança feliz que era não me deu colo quando mais precisei.
           O meu sofrimento não era, nem nunca foi, aquilo que mostrei aos outros. Aí estava perfeitamente à vontade. Que me batessem, que me maltratassem, que me chamassem os nomes que fossem precisos… estava noutra. A verdadeira angústia estava aqui, cá dentro, junto ao coração. Até aos meus 18 anos isolei-me do mundo, troquei de psiquiatra e tive a resposta final de que podia avançar com o processo. Nunca avancei antes porque era menor. A minha mãe recusou-se sempre a assinar qualquer papel e o meu pai não a queria desiludir, por isso esperei… e queimei as 100 páginas do meu antigo diário. Cortei-me nos braços e comecei no álcool com os amigos, aqueles que consegui arranjar quando troquei de escola. Hoje não sobra nenhum, nem mesmo quem mais me deu consolo. Continuo sozinho.
           Ainda estou muito enjoado, por causa do tratamento hormonal. Têm sido dias muito severos para mim. Nunca pensei sentir isto antes. Estou com dores de cabeça e apenas quero deitar-me para isto passe rapidamente. Faltam bastantes intervenções cirúrgicas e está tudo a sair do meu bolso, com a ajuda do meu pai. Larguei os estudos e decidi trabalhar a tempo inteiro para pagar o máximo de tratamentos que consiga. Eu sei bem o que quero, porque sei o que sou.

DIA 20 – APAIXONADO

            Hoje acordei bem-disposto e o meu dia não podia ter sido mais incrível do que foi e não estou a exagerar. Conheci alguém que me está a deixar completamente fora de mim. Chama-se Sandra e tem a minha idade. Encontrei-a por acaso nas redes sociais e temos vindo a falar bastante. Podia agora descrever tudo aquilo que me fascina nela, mas, meu Deus, não sei se consigo. Quer dizer, gosto muito dos olhos, são verdes, mas aquele verde mesmo claro que quase conseguimos ver o nosso reflexo. O sorriso é uma flor, daquelas que vemos na primavera e só nos apetece pegar nela e levar para casa. Opa, pareço tão lamechas que até eu não consigo lidar comigo mesmo. Não sei o que se passa, mas estou mesmo vidrado.
            Estive com ela o dia inteiro. Combinámos um sítio para nos encontrarmos, mas não foi nada daquilo que estava à espera que acontecesse. Vivemos ainda longe um do outro. Ela em Sintra e eu em Lisboa. Por isso encontrámo-nos no Parque das Nações, ali junto ao rio. Estava tudo planeado na minha cabeça. Eu ia buscá-la, tomávamos qualquer coisa numa esplanada e passeávamos por ali. Ela chegou mais cedo do que o previsto e eu, com uma dor de cabeça horrível, cheguei atrasado. Tivemos de mandar mensagem um ao outro para percebermos como nos podíamos encontrar. Eu estava numa ponta e ela na outra. “Ok, já te vi”, disse eu super envergonhado.
            “E agora? O que se faz?”, pensei para mim, porque estava frente a frente e não saia uma única palavra da minha boca. Só engolia em seco e gaguejava. Ela era ainda mais bonita ao vivo. Cheirava bem e estava terrivelmente, no bom sentido, bem vestida. Até tive vergonha dos trapos que tinha posto em cima de mim, achando eu que estava a fazer bem. Bom, lá nos cumprimentámos, com alguma timidez de parte a parte, e seguimos caminho até à beira rio. Pedimos uns gelados e ficámos a falar de tudo, da vida, da família, dos supostos amigos… e… o mais difícil, de mim. Não sabia se lhe queria contar o processo em que estava envolvido. Se era duro para mim, muito mais seria para ela. Nunca tinha estado com ninguém antes, muito menos ter relações sexuais. Não estou preparado para isso quando ainda não me sinto à vontade com o meu corpo, por isso calei-me e deixei que ela falasse.
             Não sei se vos consigo explicar, mas nunca me tinha sentido assim. O meu coração palpitava a cada palavra que ela dizia. O meu estômago dava sinais de alerta de cada vez que nos aproximávamos um do outro. Não nos beijámos porque não quis. Mas também foi um primeiro encontro, não me sentiria bem a fazer algo que depois me arrependesse. Quando cheguei a casa só tive certezas. Mandámos mensagens o tempo todo e estou mesmo vidrado na pessoa bonita que ela é e me faz sentir. Não sei se vai dar certo ou errado. Sei que quero viver isto da forma mais intensa e especial que conseguir. Sim, devem estar a perguntar-me, e a resposta é sim. Eu contei cá em casa. Mas só o fiz ainda com o meu pai e a minha irmã. A minha mãe voltava a deserdar-me se soubesse que eu andava a conhecer uma mulher, sabendo que tenho é de conhecer um homem para constituir família.
            Só queria que ela percebesse que sou um rapaz e que que só quero ser feliz. É tão simples e tão bonito ao mesmo tempo. Enfim… hoje vou dormir muito bem.

DIA 58 – MAIS PERTO

           Pedi a Sandra em namoro e adivinhem…? Aceitou! Já estou há 58 dias a escrever o meu dia a dia de um diário que já vai extenso. Têm acontecido coisas muito boas ultimamente: vou entrar nas últimas fases do processo de mudança de sexo e submeter-me às intervenções cirúrgicas finais. O meu pai e a minha irmã estão imensamente felizes por estes longos e duros meses já estarem com um fim à vista.
           Não tenho tido muitos vómitos, nem muitos enjoos, mas tenho andado com bastantes dores de cabeça. Não sei se é do amor que estou a sentir pela rapariga por quem estou cada vez mais apaixonado ou da ansiedade de me ver finalmente num corpo de homem. Já me sinto do sexo masculino, na verdade, mas enquanto não vir o órgão sexual que me pertence não me vou sentir 100% eu. No entanto, a Sandra é uma mulher 5 estrelas. Vou tratá-la assim, porque quando finalmente lhe contei toda a verdade só ouvi silêncios. No início fiquei preocupado, parecia que tudo estava a sair totalmente ao lado do que eu tinha planeado. Depois ouvi um… “Estou aqui contigo, está tudo bem.”. Não precisei de mais nada. Ouvir isto da boca dela era o suficiente para me sentir outra vez revigorado. Ganhei uma nova vida a partir daquele momento.
            O meu processo de psiquiatria aliviou e fui transferido apenas para as consultas de psicologia e só as frequento uma vez por mês. Sinto que estou a melhorar bastante. Já não sou o rapaz tímido e inseguro que era quando tudo isto começou. Gosto bastante do meu psicólogo. É um homem e sente na pele a dor dos seus pacientes. Aliás, ele gosta de lhes chamar amigos, por isso sinto-me mesmo muito contente por ser amigo dele. Falamos de tudo, sem tabus, porque acho que só assim tem de ser e só assim faz sentido. “Mudar de sexo não é só mudar de sexo, é afirmarmos a nós mesmo e ao mundo que nascemos no corpo errado.”, ele diz-me sempre isto e faz todo o sentido. Eu nasci no corpo errado, mas a personalidade está cá toda. Não mudei uma única vírgula daquilo que eu sou ou daquilo que eu gosto, apenas não me sinto mulher. Ponto.
            E no meio disto tudo, de muitas coisas boas, há mais uma pessoa que entra na equação. Eu sei que se estão a perguntar se é aquela que estão a pensar que seja… sim, é a minha mãe. E ao fim de 3 anos, desde que o processo começou a sério, que ela veio falar comigo ao quarto. Bateu à porta, pediu para entrar e sentou-se na cama enquanto eu lia um livro. “Filha, desculpa. E desculpa por tudo. Sei que não fui a melhor mãe do mundo, mas estou aqui… a tempo de corrigir tudo. Por isso, obrigado por seres meu filho.”. Foram as únicas palavras que me disse e, sem que eu estivesse à espera, abraçou-me. Confesso que quando começou a falar e me chamou “filha” que temi por mais um sermão e uma discussão em que teria de pedir ao meu pai para intervir, mas depois de um pedido de desculpas agradeceu ao “filho” que tem. Sabem? Não consigo guardar rancor. Os nossos pais são de uma outra geração e eles têm de evoluir com o tempo, passo a passo. Há pais que demoram mais e outros que demoram menos, mas temos de ter paciência. No futuro, seremos nós a ter de aceitar as diferenças dos nossos filhos. Tenho crescido muito com tudo isto e estou bastante orgulhoso de mim mesmo.

DIA 120 – SEM TEMPO

            Hoje foi a primeira vez que voltei a pegar no meu segundo diário. Tive outro antes deste onde escrevi 100 páginas de um processo longo e exaustivo da minha mudança de sexo. Comecei um novo e escrevi 19 páginas. Não sei porquê, mas larguei-o, não porque me esqueci dele, mas porque queria dar uma pausa a mim mesmo. Desabafar já não me estava a fazer sentido naquele momento. Passaram dois anos e, agora, aos 21 anos, e com o processo finalizado, tenho tanto para contar outra vez. Posso dizer-vos que, sim, já sou oficialmente o Frederico Alves Guimarães em todos os documentos de identificação e em todos os registos civis. Olho-me ao espelho e já me vejo como sempre me imaginei, desde pequeno.
            Saí de casa dos meus pais o ano passado para viajar e para estudar a cultura da vida, sim, as pessoas, os olhares, as comunidades… esse é o meu trabalho atualmente: ajudar. Abri uma instituição em nome próprio para acolher todas as vítimas de maus tratos por serem simplesmente quem são e todos aqueles que se querem afirmar, mas não conseguem. Hoje regressei ao meu quarto, na casa dos meus pais, para vir buscar umas últimas coisas para a minha casa nova e tudo em mim palpitou. Os meus pais continuam os mesmos. Estão mais sensíveis e apoiam-me em tudo aquilo que preciso. A minha irmã emigrou para outra cidade e refugiou-se no Alentejo com o namorado. Eu acho que ela está grávida e não nos quer contar. Enfim, é esperar. Eu e a Sandra… bem, não foi exatamente como planeámos. De facto, foi com ela que aconteceu tudo pela primeira vez, mas os nossos objetivos de vida não eram os mesmos, por isso fiquei sozinho, tive as minhas diversões, claro, mas prefiro ficar sozinho para já. Estou a reconstruir-me e isso leva o seu tempo.
            Como vos disse, tenho também aproveitado para conhecer o Mundo. Só ainda conheci 5 países num espaço de 1 ano, mas quero muito mais. Foram experiências incrivelmente deslumbrantes. Aprendi muito com muita gente que fui encontrando pelos sítios onde passava e fiz muito bons amigos com quem fiquei com o contacto para quando regressar ter onde ficar. Sim, eu sou um simpático e carinhoso aproveitador 😊. Também tenho aproveitado para gerir a minha agenda o melhor que posso, porque de entre trabalho, mudanças de casa, viagens e momentos com amigos, tive de disponibilizar 1 hora por dia para fazer exercício físico e ter o corpo com que sempre sonhei desde jovem.
             Sabem? Tenho realmente saudades de todas as páginas que escrevi e de toda a vida que depositei nos meus diários. Para quem ler isto, no futuro, e espero que sejam os meus filhos, então que o partilhem com o mundo também. Quero ser o bom exemplo de alguém que quis ser apenas uma pessoa normal. Podia dizer-vos milhentas coisas ou dar-vos centenas de desculpas para qualquer momento que tenha passado, mas não o vou fazer porque tenho a plena noção de que tudo o que sou hoje foi graças ao que vivi.
            Vou-me embora, querido diário, e vou fechar-te pela última vez. Sentia que faltava esta última página para, a partir de hoje, começar a escrever o diário da minha vida, na minha memória e nos momentos que quero viver. Tenho saudades do futuro e é mesmo para lá que eu vou, sem nunca deixar de ser o que eu quiser ser.

Até um dia!

Com muito amor do Frederico.

FIM.

(Esta série é uma obra de ficção escrita, por isso qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência).