Cartas ao Pai Natal

CARTA DO TIAGO (MILITAR)

Pai Natal,

Tenho 28 anos. Sei que não existes e que vivi uma infância inteira a acreditar que podias ser possível de acontecer. Estou na República Centro-Africana, ao serviço da ONU, a combater grupos radicais que invadem e matam, sem piedade, as populações locais. Cheira a carnificina. E o sangue que vejo é mais do que a água que bebo. Não sei mais para onde olhar porque só vejo armas e a pólvora da guerra que me consome todos os dias. Somos 200 militares à procura de nada, apenas matar quem mata. O Jorge deita-se todos os dias ao meu lado para me acalmar. É o meu apoio no meio de toda esta sujidade satânica.

Tenho saudades. Muitas. Da minha filha. Está em Portugal e não a vou poder ver, não a vou poder abraçar como sempre fiz todos os anos, não vou poder dar-lhe aquele presente especial à hora especial. Sei que a minha família reza por mim, para que esteja bem… e estou. Estou a lutar em nome de uma nação que me viu nascer. Se pudesse pedir um desejo era voltar só por um dia, 24 horas, chegava, para abraçá-los a todos. A minha filha manda-me mensagens todas as noites e diz sempre o mesmo: “Papá, ainda não me esqueci de ti. Amo-te aqui e na Lua…”, e eu completo: “… para sempre.”. Se estivesse com ela, olhos nos olhos, abraço no abraço, ficávamos só nós, juntinhos, a ler uma história até adormecermos na cama. Depois acordávamos e íamos fazer bolos com ingredientes estranhos, ríamos até cair no chão, fazíamos partidas à mãe, escondíamos o Lucas, o gato lá de casa, no armário da roupa…

É difícil… e é cada vez mais duro de aceitar que me sujeitei a fazer o bem pelos outros sem receber nada em troca. O aplauso de um povo, talvez. Mas isso é muito vago comparado àquilo que construí em Portugal. Isso, sim, dá-me força de seguir. Choro bastante, porque as lágrimas me caem sem pedir permissão e eu deixo, porque só assim faz sentido.

Pai Natal, se me estás a ouvir, leva esta carta para porto seguro, onde ninguém a abra a não seres tu e onde ninguém a sinta a não ser a minha família. Pareço um parvo a escrever para alguém que não existe, mas nestes momentos é só o que sentimos. Tudo e nada ao mesmo tempo. Sabes? Só não quero morrer sem me despedir dos meus, porque os amo mais do que a minha vida. E eles merecem isto, por mim, pelo menos. Por hoje já está… é só o que me interessa. No entanto, o problema é sempre o mesmo… e amanhã?

Obrigado por me ouvires, sabe-se lá o que isto queira dizer.

Tiago Mendes

CARTA DA SARAH (FILHA DO PRESIDENTE)

Pai Natal,

Estou no quarto sozinha. O meu pai é presidente de uma das nações mais poderosas do mundo. Nasci aqui, em terras americanas. Que dizer mais? Acho que estou feliz, ou talvez não, não sei… tenho tudo o que quero, não preciso de trabalhar, pagam-me o que preciso. Quer dizer, ainda tenho 24 anos, não me preocupo com contas diárias. Tenho uma família de classe nobre, acho que lhe posso chamar assim. Não saio com ninguém, sou filha única e sinto-me um pouco aprisionada na vontade que tenho para fazer as coisas. Não me consigo soltar.

Já tentei de tudo. Ler um livro? Já li imensos. Fazer desenhos? Já rabisquei todas as folhas. Pintar? Não gosto. Ouvir música? Para quê? Ser empreendedora? Já o faço na gestão de redes sociais do meu pai. Sou bem paga, não me queixo. Natal? Fechados dentro de um palacete só nós os 3, sem grandes alaridos, porque não podemos fazê-lo. Temos o mundo inteiro de olhos postos em nós. Não sei se foi bem isto que pedi para o meu futuro e até já me tentei aleijar algumas vezes. Acho que percebeste o que quis dizer com “aleijar”. Bem, eu explico… Já tentei dar uns golpes fundos nos meus braços. Deitei algum sangue e senti-me bem. Quero fazer mais vezes sem ninguém saber. Tenho a certeza que só nesses momentos me sinto eu de verdade.

A minha mãe está mais preocupada em fazer boa figura publicamente do que saber realmente aquilo que eu sinto. Não me ouve. Acha que o caminho para uma boa família é a classe que ela pode ter. Não tenho isso nem sei ter. Finjo ter. Finjo a toda a hora, na maneira de comer, na maneira de falar, na maneira de andar, na maneira de estar, tudo. Tornei-me fútil e egoísta. Não consigo sair deste labirinto. Por muito que quisesse não consigo. E fico assim, sentada na cama, agarrada aos papéis, a escrever e a tentar perceber o que o anel de diamantes que tenho no dedo ou as roupas caras que tenho no armário simbolizam no meio deste turbilhão de emoções.

Pai Natal, quero ir. Esse é o meu grande desejo. Não estás aqui comigo, não me podes ouvir, não me podes falar e eu quero ir. Ser livre. Mas antes gostava de passear na praia com os pés descalços, sentir a areia e os salpicos da maresia bater-me na cara e dar um grito. Tão bom! Depois, sim, posso sair daqui, desta terra, deste ambiente tóxico. Fechar os olhos e nunca mais acordar. Acho que não é difícil. Na verdade, só preciso de ajuda, sem julgamentos. Alguém ou alguma coisa que me consiga tirar esta dor forte que me sufoca o peito. Por favor, não estou a pedir muito, nem nunca te pedi nada.

Responde-me como puderes, da maneira que puderes. Eu já não posso.

Sarah Bones

CARTA DA LETÍCIA (A MENINA DE 12 ANOS)

Querido Pai Natal,

O meu nome é Letícia Santos, tenho 12 anos, estou no 6º ano e moro em Portugal. Quer dizer, moro em Guimarães numa rua bem gira. Fica perto da pastelaria no senhor Zé e tem os melhores bolos do mundo. O sítio onde moro está todo decorado com bolinhas e luzes. Tenho um jardim com relvas e árvores. Vou muitas vezes lá para fora brincar, não posso estar com os meus amigos por causa da pandemia. Não tenho irmãos para me divertir. E também já não vou ter na minha vida, infelizmente. Os meus pais morreram num acidente de avião quando era bebé. Vivo com os meus avós desde pequenina.

Às vezes penso como seria se eles cá estivessem. Os meus avós sempre me disseram que eles estão a olhar para mim lá de cima. Eu não percebo muito bem onde, nunca percebi. Tento ver à noite as estrelas para os ouvir e parece que os sinto. Oiço a voz da minha mãe a dizer que tenho o coração do tamanho do mundo e o meu pai diz-me que sou a princesa mais linda do país. Devem ser só coisas da minha cabeça. Dizem que as crianças ouvem e sentem coisas e que precisam de ir ao psicólogo para verem que doença têm. Eu nunca fui, por isso não sei se preciso.

Pai Natal, não sei como te chamas, e já te envio cartas desde sempre, por isso este ano vou estar à tua espera no dia 25 de dezembro à noite. Sim, porque eu vou deitar-me todas as noites no dia 24 sem prendas e ao outro dia tenho sempre uma à minha espera debaixo da árvore. Só podes ser tu. Sabes sempre os meus gostos. Nunca falhaste naquilo que te pedi. Mas neste Natal quero que seja diferente. Não quero receber nada. Quero dar ao meu avô a cura contra o cancro que ele está a passar. Têm sido dias muito difíceis para nós. Temos o apoio de uma instituição que nos ajuda em tudo o que precisamos, mas o meu avô já tem muita idade e não quero perder antes do tempo. Quero que ele me veja a ser feliz naquilo que quero fazer da vida.

Amo muito os meus avós, são tudo para mim. Dão-me aquilo que mais gosto… beijinhos e abraços. Não peço mais nada. O resto é tirar boas notas na escola e ser muito amiga dos meus amigos. Sou já muito crescida, mas não quero deixar de ser a criança que sempre fui até hoje. Não digas isto a ninguém, mas até ao fim da minha vida vou acreditar sempre que existes, mesmo sabendo que durante a noite não te vou encontrar. Quer dizer, este ano vou estar à tua espera.

Beijinhos e até já!

(Esta iniciativa é uma obra de ficção escrita, por isso qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência).