Como assim?

60 dias. É este o número de dias que passaram desde que se anunciou um novo confinamento em Portugal. Dia 15 de janeiro recebíamos a notícia de que tínhamos de ficar novamente confinados em casa para, acima de tudo, salvar vidas, num momento em que o nosso país registava milhares de casos diários e dezenas de mortes. Hoje é dia 15 de março. Passaram exatamente 2 meses e longe de pensarmos que íamos começar logo o ano de 2021 fechados nas nossas casas. “E agora?”, foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. “Tudo outra vez não, por favor.”, era somente aquilo que me ocorria porque já tinha vivido o mesmo o ano passado durante 50 dias. No entanto, a imaginação e a criatividade para criar coisas novas já se esgotava.

Passei, aliás, acho que é geral, passámos por um dos invernos mais frios de que há memória, pelo menos na minha. Não me recordo de meses como dezembro, janeiro e fevereiro tão gelados como neste arranque de ano. Talvez por isso tenha sido bastante difícil travar esta luta de um novo recolher domiciliário. Tenho as minhas fragilidades, todos temos, longe de ser hipócrita, mas nunca pensei que todas elas sobressaíssem de forma tão evidente durante este tempo. Na primeira semana, tudo bem. Na segunda, já me começava a remexer. Na terceira, estava completamente fragilizado. Acordava sem vontade para as minhas tarefas diárias, tinha uma preguiça descomunal para os meus afazeres do dia a dia, estava sem criatividade de criar e escrever coisas novas, apesar de as ter feito com muito esforço, necessitava de atenção o tempo todo, sem ser das pessoas habituais cá de casa. Queria amigos, queria sair, queria ouvir música, queria dançar e, o que mais me custou… queria abraçar, e já não o faço há 1 ano, há mais de 365 dias que não abraço ninguém a não ser aqueles que vivem comigo todos os dias.

Como assim, isto aconteceu comigo? Eu que vejo sempre o lado bom de todas as coisas, eu que tento sempre colocar o meu melhor sorriso e fazer as piadas mais divertidas para me distrair do mundo lá fora… como assim? Fiquei tão frágil emocionalmente, que qualquer coisa que, hoje, agora, mexa com o meu psicológico me parto em cacos e não consigo controlar as lágrimas, porque fiquei… não sei explicar… talvez bastante vulnerável. Penso todas as noites, medito sempre que consigo e… meu Deus! Tenho as emoções em chama constante.

Esta pandemia, que já todos sabemos, até de olhos fechados, o que é e como se comporta, veio desafiar-nos a todos os níveis. Há pessoas que ficaram infetadas, muitas outras internadas, outras que partiram… e, não menos importante, uma grande parte que se esgotou psicologicamente, outras que tiveram depressões e esgotamentos emocionais. Isto é muito perigoso para quem não tenha o apoio devido. É muito forte para quem sente.

Posso dizer-vos que o cansaço que eu senti, simplesmente por não fazer nada, é o cansaço que acredito ter sido de muitas outras pessoas. Foi um desafio gigante para mim. E, agora, que já podemos começar a sair à rua e a regressar às nossas rotinas normais, com o calor quase a chegar, tenho a certeza absoluta que sou, uma vez mais, uma pessoa muito diferente de quem era há um ano. E, por tudo isso, estou muito grato.

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