O cheiro da minha infância.

A primeira memória que tenho minha é de estar a jogar às escondidas com a minha mãe por entre os carros que estavam estacionados nas pequenas ruelas íngremes do Bairro da Bica. Foi lá que me instalei, com os meus pais, quando vim de França. Por esta altura já deveria ter os meus 4/5 anos de idade.

Aquele espírito bairrista traz-me recordações apaixonantes. Rever e voltar a ouvir, na minha cabeça, as brincadeiras de passeio para passeio com os meus amigos, sair de casa depois de almoçar para ir brincar nos paralelos com o que houvesse (bolas, pedras, cordas…), correr atrás do ascensor que nós, entre todos, muito naturalmente chamávamos de “Elevador da Bica”, que lá está e continua a ser uma das almas daquele bairro. Nos santos populares, em todos aqueles dias, antes do feriado de Santo António, havia o cheiro das sardinhas, do pão, das tascas cá fora, o cheiro das roupas dos marchantes que se apresentavam no bairro no calor da tarde antes de irem desfilar para a avenida na noite de 12 para 13. Enche-me o coração ter, ainda, a capacidade de reviver tudo isso.

A minha escola ficava a uns minutos a pé de minha casa. A minha mãe ia levar-me todos os dias, deixava-me à porta e eu, na minha inocência de criança de infantário, dava uma corrida até ao pátio inferior, onde ficava o recreio, como lhe chamávamos, e cá em cima lá estava a minha mãe à espera que lhe lançasse um beijo com a mão e agarrasse o dela junto ao meu coração. Ninguém me tirava aquele ritual por nada. Sinto que, e mesmo na minha ama, era uma criança abençoada e grata por tudo aquilo que tinha. Era bem tratado, amado e um brincalhão de primeira, no entanto também era, e ainda sou, muito reguila. Sabem aquela criança chata e hiperativa que queria tudo à sua maneira? Era eu, sim. Hoje, felizmente, toda essa faceta passou, mas aquele jeito de pregar uma boa partida ou de tirar a paciência a qualquer um continua cá.

Fui crescendo e, quando fiz 7 anos, tive de sair. Os meus pais estavam mudados de armas e bagagens para Mafra, onde continuo. Fui para o 2º ano e lembro-me de ser o menino francês, branquinho que veio de Lisboa e que queria ser pastor. Sim, era a minha profissão de sonho, talvez muito por causa dos meus avós, sempre adorei a vida de campo e dos animais, das verdadeiras origens portuguesas. Porém, sei que todas estas mudanças só serviram para me definir enquanto pessoa e qual é, de facto, o meu propósito de vida.

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