“Olh’ó Paneleiro!”

Paneleiro. É esta a palavra. Não vou mentir, causa desconforto, incómodo, não é bonito de se ouvir. Quer dizer, pelo menos quando nos referimos a alguém homossexual, porque a um fabricante de panelas o termo assenta que nem uma luva. Agora, aquilo que tenho vindo a reparar ao longo do tempo é que é um termo aplicado somente aos homens. As mulheres, mais uma vez, entram neste ciclo de descriminação. Eu até compreendo, atenção, chamar “paneleira” a uma mulher até tem uma certa delicadeza, dando uma robustez engraçada à figura feminina, o que não é o objetivo. Bem sabemos que, para os homens, duas mulheres juntas é fetiche, dois homens são nojentos.

Surgem, então, outros termos para o role da conversa: larilas (até acho querido, faz-me lembrar o “Fado 31” quando no verso se entoa “Ólarilólela”), maricas (o que até nem faz sentido, visto que alguns até são bem resistentes às emoções), panasca (só me lembra comida, desculpem, panado, patanisca…) e bicha. Pois é, bicha. A designação mais polémica de todas. E esta, sim, tem muito por onde pegar. Porque vejamos, há os gays, os héteros curiosos, os bissexuais, porém lá num outro universo, um grupo de homens surgiu de uma outra dimensão para vir povoar a terra e nos seus jeitos femininos fazerem coisas de meninas. É muito engraçado ver que o julgamento que se faz de alguém diferente da maioria da sociedade é de uma brutalidade desmedida. Perfeitamente compreensível, antigamente o homem era o chefe de família, o macho alfa, o que bebia, comia, tinha força… felizmente evoluímos. Se bem que muitos desses, nos tempos livres, às escondidas, lá se valiam de um homem e uma cama para prazeres múltiplos. Mas, segredo, não contem a ninguém.

E sabem aquela premissa muito divertida de alguns pais que adoram defender os direitos dos comuns mortais, no entanto, em algum dia perdido pelo calendário, o filho aproxima-se e, num jeito inocente, revela que gosta de pessoas do mesmo sexo e os papás defensores da moral julgam-no como alguém fora do seu tempo? Isto acontece, para nossa tristeza, e não é bonito, garanto-vos. O típico ritual da “saída do armário”, do “assumir publicamente”… é rústico, não se enquadra nos tempos em que vivemos. 2019, século XXI, uma geração de jovens “despida de preconceitos” (dizem, para ficar elegante na fotografia social), e não haveríamos nós de agir com a fluidez que a vida nos imprime? É tudo tão mais contemplativo. É óbvio que a comunidade LGBT(…) e mais uma letras do alfabeto com a sua bandeira colorida faz um excelente trabalho pelos direitos de quem gosta de pessoas, de quem vive para amar, é verdade, mas, para mim, e fora deste conceito de “comunidade”, há uma coisa muito mais importante que se chama Amor e esse não tem exclusão. Esse vive-se e mostra-se. Naturalmente.

O trabalho tem de ser feito na cabeça de todos nós. Podemos não aceitar, é claro que sim, mas respeitamos. E eu tenho a sorte de, com 20 anos, poder dizer à vontade que não tenho medo de amar quem quer que seja. E aí, desse lado, não desrespeitem o vosso querer, e vão. Porque tenho a certeza de que quem gostar de vós vai lá estar. Em tudo. E, essencialmente, nunca se esqueçam de sempre que se ouvir “Olh’ó paneleiro”, pois façam-me o favor de chegar perto da pessoa cobarde e responder direto: “Com muito orgulho!”.

Uma opinião sobre ““Olh’ó Paneleiro!”

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